Parece-me que morri; sinto-me como se estivesse observando o mundo de uma janela de alguma casa que fica fora dele. Vejo as crianças brincarem lá em baixo, correrem, e elas nem se quer podem ouvir meus gritos, meus desesperados e abafados gritos de socorro. Parece-me que ninguém me escuta.
Através dessa janela fico só olhando, vejo as pessoas alcançarem sonhos, se realizarem e eu me sinto presa, mas parece-me que ninguém me vê. E é como o barco que é preso à beira do cais pelo pescador e que apesar da agitação da água não sai do lugar.
Parece-me que esqueci de viver, e de tão acostumada a olhar para os lados não me lembrei que a vida anda é para a frente.
Tem dias que igual ao guarda que vigia tudo de dentro do ponto mais alto do forte eu vigio, e espreito tudo o que se passa à minha volta sem nada almejar. Parece-me que ando no escuro, passo a passo, com muita cautela e não sei para onde ando, a única coisa que sei é que andar é preciso. E nada mais.
Parece-me que morri e tão logo já fui reposta, o mundo me aperta e me pressiona querendo o meu lugar vago, para que outra pessoa venha e faça tudo o que eu não fiz, viva o que eu não vivi, seja o que eu não fui. Parece-me que sou substituível. E tudo que me falta é um impulso, uma vontade.
Uma eterna guerra entre o "Idi" e o "Superego", locus cuja psicologia muito bem os define porém locus esse que a mesma psicologia não encontra em mim, nem por um segundo!
Parece-me que vou continuar olhando pela janela, até resolver procurar a porta.


